fim

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morning.

Acordei sem travas,  limitações ou passado.

Sou um universo de possibilidades.

Chuva lá fora.

Aqui sol e praia.

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Giovanni

image.jpegHá sensações que marcam mesmo quando são vários os detalhes esquecidos. Lembro a data aproximada, as minhas roupas e parte dos trajes dele. Estava com uma amiga em uma estação de trem, cidade esquecida, mas estação enorme, daquelas com partidas e descidas a todo o momento. Permanecíamos sentadas, com as mochilas a descansar nos pés, aguardando o horário de mais um embarque.

Eu e a amiga chegamos cedo, mal de principiantes, já que em viagens desse tipo não é necessário se adiantar. Ele compartilhava o nosso banco e escrevia incansavelmente em um caderno pequeno e velho. Estava sem bagagem – com exceção de uma mochila pequena – e de havaianas. Eis o detalhe que captou a atenção e atiçou minha curiosidade. Seria ele brasileiro, a julgar pela bandeira em seus chinelos?

Não sei como a conversa iniciou, mas, quando vi, falávamos sobre tudo. Em inglês, pois Giovanni é italiano. Em italiano também, quando nos convinha e minha pouca habilidade se revelava suficiente. Morava na Espanha, porém nasceu e cresceu em uma pequena cidade perto de Milão. Fazia faculdade, mas o curso me escapou da memória. Chegou a compartilhar dormitório com um brasileiro, de quem ficou muito amigo. “Fica tranquilo, vai dar tudo certo”, era o que sabia falar em português, frase repetida pelo seu colega um sem número de vezes, explicou. Até hoje a visão do italiano com leve sotaque espanhol falando português me vem à cabeça em momentos de crise e suaviza qualquer que seja o problema. Não pelo mantra, claro, mas graças ao sotaque. Aliás, pela graça do sotaque.

Não sei quantas palavras troquei com o italiano das havaianas, entres chegadas e partidas. A conversa fluiu tão naturalmente que é difícil escapar do clichê e não falar que parecia que já nos conhecíamos. Em algum momento durante as narrativas sobre a minha primeira vez no velho continente, dicas de Barcelona devidamente registradas em um mapa por ele improvisado, risadas e conversas, o meu trem chegou. Infelizmente.

Ele se levantou ao mesmo tempo do que eu, ajudou a erguer a pesada mochila e a ajustá-la na minha cintura, mostrando-me como o peso estava mal distribuído e como sofri sem motivos ao carregá-la até então. Enquanto ainda fazia os ajustes, agora em silêncio e na minha frente, senti os seus olhos sobre mim.

Não sei por quanto tempo permaneci olhando para baixo enquanto ele ajustava a mochila. Algo me impedia de encará-lo. Não ouvi mais o vai e vem de pessoas ou as conversas e barulhos de bagagem sendo arrastadas. Os olhos dele em mim, os meus olhos nas havaianas dele, as mãos dele na minha cintura e o som das nossas respirações. E é só disso que me lembro com perfeição.

Aí, a amiga chamou, o trem apitou. Realidade gritando, em outras palavras. Com medo de olhar, abracei-o e entrei no vagão o mais rápido que pude. A viagem seguiu, eu voltei, mas aquela sensação especial de “encontro” dura até hoje. Não me lembro do rosto dele, mas recordo com precisão a sensação que me causou.

Foi um daqueles momentos em que faltou coragem. Minha. Coragem de (apenas?) encarar.

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Duo

Vocês. O amigo e o estranho. O que me conhece e o que me provoca. O que de mim sabe ao outro esconde. Você. Os dois.

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Nunca.

Você nunca me permitiu falar.

Pior do que não saber o que dizer é ser impedida de expressar o que sempre quis gritar.

E,  entre “nuncas” e “sempres”, de vez calei.

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Folgado.

Terno caro e aprumado, discurso ensaiado, fala coerente. Quem de longe vê, com ele logo simpatiza. “Guerreiro, coitado!”. Difícil não se comover pelo homem por detrás da pilha, aquele que tanto faz, que tanto luta, mas que, desassistido, garante ele, não consegue dar rumo a tudo.

Culpa o trabalho, a equipe, o infortúnio. É pai de família, trabalhador desde sempre, passou por maus bocados que cismam em não abandoná-lo. Desde que ali chegou, tudo desandou. Horas de trabalho se multiplicam, mas as pilhas também o fazem – em progressão geométrica, chega a defender.

Espectador distante compra o discurso e com ele faz coro. Juntos, lamentam-se pelo passado, presente e quiçá futuro – que por certo ruim também será. Uma lágrima escapa dos olhos do engravatado.

O discurso repetido vira mantra em bocas alheias. Ajuda virá, garantem os superiores. Enquanto isso, nosso personagem faz caminhadas de hora em hora para desestressar, além de, claro, de tempos em tempos visitar a cafeteria mais próxima. Sem café, não há como aguentar!

Em dias avisados e também nos não avisados o moço não comparece ao trabalho. Um dia, doença; no outro, cárie nos dentes; no terceiro, por certo doença novamente, garante a torcida desorganizada.

As pilhas aumentam proporcionalmente a cada lágrima de crocodilo lançada e, à maneira delas, também choram, já que todo volume representa um nome e uma história e aguarda uma conclusão a nunca acontecer.

Fazem elas parte do espetáculo: o personagem, ao contrário do que professa, deseja que se proliferem, e rápido! Números respaldam a sua teoria.

Estão, as pilhas, fadadas a moeda de troca de alguém que faz da própria escolha um martírio.

Com tantos números, o final é feliz para o nosso amigo, muito embora não o reconheça publicamente. Ganhou mais ajuda do que pensou conseguir, mas incrivelmente o trabalho nunca lhe pareceu tão sofrido. As pilhas o odeiam, já que, teoriza, parecem preferir a sua mesa a escritórios alheios.

Concorda-se com ele no que tange à injustiça da vida. Sob a ótica das pilhas, certamente. As poucas que têm por destino a sua mesa…têm por final destino a sua mesa, se é que me entendem.

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Lucia

Vó,
Como sempre, vou chamá-la de você, já que, ainda bem, nunca houve formalidade entre nós.
Os almoços na sua casa são o ponto de encontro semanal da família. Sempre fiz a maior propaganda do seu molho de tomate, do bolo de chocolate e de tudo o que há no banquete” de sábado. E, todos sabem, não existem excessos na minha frase – já no almoço, bom, deixa para lá…
O pai não come frango, o primo prefere molho branco, a mãe tem intolerância à lactose. Todas as necessidades são atendidas e, não sei como, você sempre se lembra de todas elas, mesmo após os seus noventa.
A mesa – a grande – é pequena. Usamos duas e, às vezes, também o sofá. E você sempre fala: “espremam-se que dá!”.
Em coração de mãe/vó/bisavó sempre cabe mais um, ditado comprovado na prática para felicidade da nação.
Quando as discussões se tornam acaloradas, em razão do seu e, em consequência, nosso sangue italiano, valendo-se dos seus já citados noventa e poucos, você diz “ainda bem que não ouço mais nada” e tudo termina em gargalhada.
E, no meio da confusão, alguém sempre pede a chave do quartinho… aquele, o de doces. Na casa da vó, doce nunca faltou e nunca faltará.
[Amém.]
As receitas viraram livro. As anotações de uma vida, também. Vó, você nunca sossegou – ainda bem!
Hoje você está vulnerável, porém continua doce e forte. E, não, não há contradições na frase – quem a conhece bem sabe.
Escrevo mais para mim do que para você, muito embora seja o seu dia. Você é tão generosa que tenho certeza de que não se importa se a minha carta é no fundo meio egoísta: É bom me lembrar de como fui e sou feliz na casa da vó Lucia.


Continue fortaleza, tá? Até amanhã.

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